3# BRASIL 18.12.13

     3#1 A BILIONRIA CONTABILIDADE DO EMPRESRIO FANTASMA
     3#2 RETRATOS DE UMA TRAGDIA
     3#3 PROTEGENDO A MFIA
     3#4 CARTEL NA MIRA DO STF

3#1 A BILIONRIA CONTABILIDADE DO EMPRESRIO FANTASMA
Adir Assad, o homem que faturou 1 bilho de reais com uma rede de empresas que no existem mas oferecem um servio muito valioso: corrupo e financiamento clandestino de campanhas eleitorais. Entre seus clientes, esto as maiores empreiteiras do pas, bancos, consrcios, consultorias, concessionrias e muitos amigos do poder...
ALANA RIZZO, DANIEL PEREIRA E RODRIGO RANGEL

     O empresrio paulista Adir Assad  uma pessoa conhecida no ramo do entretenimento. Durante dcadas, ele trabalhou na captao de patrocnios para shows e espetculos. Por suas mos vieram ao Brasil a banda U2 e as cantoras Amy Winehouse e Beyonc. Nas festas e jantares estava sempre em companhia de gente famosa. Assad se acostumou aos holofotes, mas, apesar da badalao, levava uma vida tpica de classe mdia. Essa histria comeou a mudar quando o empresrio  que aprendeu com o pai, um mascate de origem libanesa, que o segredo do sucesso  vender bem  trocou o ramo dos eventos pelo de engenharia. Mais especificamente, aquela engenharia perversa que garante o repasse de dinheiro, sob a forma de propina e caixa dois eleitoral, a servidores pblicos e polticos corruptos. A mudana de rea de atuao teve efeitos imediatos. O faturamento das empresas de Assad cresceu 574 vezes em quatro anos, ele enriqueceu e, de quebra, trocou o noticirio de celebridades pelo policial, sob a suspeita de coordenar um esquema de distribuio clandestina de recursos estimado em 1 bilho de reais. 
     Formado em engenharia civil, Assad contribuiu para o fim melanclico da CPI do Cachoeira. Criada pelo PT para atacar instituies que investigaram e denunciaram o mensalo, a comisso passou a aterrorizar os polticos, inclusive os petistas, depois de VEJA revelar que a empreiteira Delta, at ento a principal fornecedora da Unio, usava uma extensa rede de empresas-fantasma para pagar propina a senadores pblicos e financiar ilegalmente campanhas eleitorais. Assad era pea vital dessa engrenagem. Suas empresas de engenharia e terraplenagem recebiam da Delta grandes quantias, que depois eram sacadas na boca do caixa e repassadas aos beneficirios finais. Coube ao prprio dono da Delta, Fernando Cavendish, relatar esse esquema a parlamentares. Na conversa, Cavendish disse que no apenas a Delta mas companhias de diversos setores usavam o laranjal de Assad para remunerar funcionrios pblicos e polticos. O recado era claro. Todos, empresrios e autoridades, perderiam se o esquema fosse investigado a fundo. Todos deixaram o esquema de lado. Em agosto do ano passado, VEJA mostrou que as firmas de Assad haviam recebido mais de 200 milhes de reais da Delta e de outras empreiteiras. Agora, descobre-se que o valor  muito maior. 
     A contabilidade das empresas de Assad revela que elas receberam 1 bilho de reais, entre 2006 e 2013, de 134 clientes, como empreiteiras, bancos, usinas de energia, empresas de logstica, incorporadoras e concessionrias de rodovias. Quase metade dos clientes (cinquenta) so empreiteiras e empresas da construo civil, que juntas desembolsaram 750 milhes de reais. A evoluo do faturamento de Assad acompanha a escalada da Delta no ranking de fornecedores da Unio. Em 2006, as firmas do empresrio faturaram 660.800 reais. Em 2010, ano de eleies gerais, 379 milhes de reais. Delta e Assad compartilham de outras coincidncias. Entre as clientes do laranjal do empresrio figura a Sigma Engenharia. Trata-se daquela empresa comprada por Cavendish que contratou o mensaleiro Jos Dirceu como consultor. Foi justamente numa conversa com seus ex-scios da Sigma que Cavendish contou que o segredo para abocanhar contratos pblicos era pagar propina e comprar polticos. A frase  clebre: "Se eu botar 30 milhes na mo de polticos, sou convidado para coisas para 'c...'". 
     Integrantes do Ministrio Pblico e da Polcia Federal suspeitam que Assad seja o instrumento para botar os tais milhes na praa. Por uma simples razo. Quem contrata as empresas de Assad no espera que elas realizem servios de engenharia e terraplanagem. Quer apenas us-las para dificultar o rastreamento do dinheiro que sair da iniciativa privada para os bolsos de servidores pblicos, polticos e candidatos.  sintomtico o fato de as firmas de Assad serem consideradas fantasmas. Parte delas tem como sede uma casa vigiada por um pitbull e um sobrado maltratado. No incio, o prprio Assad aparecia como scio de algumas firmas. Depois, foi transferindo-as para os chamados "laranjas", como os manuais da corrupo definem aqueles que emprestam o nome para esconder a identidade dos verdadeiros donos do negcio. Os escolhidos, quase sempre, eram seus funcionrios e agregados, como o casal Jucilei dos Santos e Honorina Lopes. H poucos meses, uma parte das empresas de Assad foi declarada inapta pela Receita Federal. O motivo: "localizao desconhecida". Apesar do faturamento bilionrio, as empresas tambm no tm empregados registrados e contam com o servio dos mesmos contadores. 
     Atualmente, Assad banca os custos de defesa de seus laranjas. Dinheiro no deve ser problema para ele. Como operador do esquema, ele ganhava at 10% do valor da nota emitida. Ou seja: teria amealhado at 100 milhes de reais. O filho do mercador soube vender bem seus servios e fez fortuna. Uma ascenso patrimonial que pode ser retratada pela mudana de endereo. Hoje, Assad mora no conjunto de torres residenciais do Shopping Cidade Jardim, um dos endereos mais caros e exclusivos de So Paulo. Antes, residia num apartamento na Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi. Em outubro, investigadores coletaram documentos nos escritrios de Assad e de Cavendish. Na semana passada, ficaram prontos os primeiros laudos contbeis do inqurito da Delta. " um caso muito sensvel que pode respingar em muita gente poderosa", disse a VEJA um dos investigadores. E pode mesmo. No auge da CPI do Cachoeira, senadores do PT lembraram, numa reunio fechada, que Assad tinha "ramificaes'' no partido em So Paulo. Investig-lo seria dar um tiro no p. Idntica preocupao correu outros gabinetes da Cmara. 
     Para impedir a apurao do laranjal, o PT tentou reforar seu time na CPI. Ex-presidente do partido, o deputado Ricardo Berzoini foi escalado como suplente do inexpressivo deputado Sib Machado. O PT ainda tentou convencer o PMDB a lhe abrir vagas na CPI. Em vo. O PMDB tambm estava preocupado com o governador Srgio Cabral, amigo de Cavendish, e com o destino de deputados peemedebistas eleitos pelo Rio. "A investigao poderia respingar em todo mundo, de todos os partidos e de vrias empreiteiras. A preocupao era generalizada", lembra um deputado petista. A lista de clientes de Assad justifica plenamente o arquivamento do caso no Congresso. Alm de grandes empreiteiras, despontam na relao dois amigos do peito do ex-presidente Lula. Queridinha do governo passado, a JBS pagou 1 milho de reais a uma empresa de Assad em julho de 2010, vspera da eleio. Berzoini, o reforo petista, sabia disso. J a usina So Fernando Acar e lcool desembolsou 3 milhes de reais para Assad em 2011. O dono da usina  Jos Carlos Bumlai, o compadre de Lula que tinha acesso livre ao Palcio do Planalto e atuava como uma espcie de tutor dos filhos do petista na rea dos negcios. 
     Os clientes que mais pagaram a Assad no quiseram comentar o caso. O empresrio (veja a entrevista na pg, 83) rechaou as suspeitas que pesam contra ele. A palavra final no entanto, ser dada pelas autoridades que investigam o caso, que tm boas pistas para chegar aos beneficirios do dinheiro. A engenharia financeira comandada pelo empresrio no  um caso isolado no pas. So variados, e multipartidrios, os esquemas de pagamento de propina e financiamento ilegal de campanhas. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) comeou a julgar uma ao direta de inconstitucionalidade, ajuizada pela OAB, que pretende proibir a doao de empresas a partidos e candidatos.  primeira vista, o recurso  meritrio, j que visa a interromper a engrenagem perversa em que agentes privados financiam os candidatos para receber em troca toda sorte de favores. A ao j conta com o voto favorvel de quatro ministros. Entre eles, o presidente do STF, Joaquim Barbosa: "O poder econmico no deve mais condicionar o poder poltico". Barbosa tem razo. Pena que o poder econmico no deixar de ter peso decisivo no sistema poltico graas a uma deciso judicial. Pelo contrrio, a restrio  doao legal tende a reforar as contribuies por fora e semear o terreno para o surgimento de novos Assad. A mudana vai privilegiar duplamente o PT. Se for instaurado o financiamento pblico de campanha, o partido, por ter a maior bancada federal, receber a maior parte do bolo. As demais siglas, que no dispem do controle da mquina federal nem do portentoso esquema de publicidade institucional, disporo de menos recursos para fazer frente  hegemonia petista. Uma democracia sem oposio vivel e sem perspectiva de alternncia de poder  uma calamidade. O financiamento pblico de campanhas vai torn-la realidade. 

TOTAL  1 BILHO DE REAIS
Do rol de clientes de Adir Assad constam mais de 130 empresas que pagaram 1 bilho de reais por servios que quase nunca foram prestados

440 milhes de reais  Delta
112 milhes de reais  ANDRADE GUTIERREZ
62 milhes de reais  Galvo
51 milhes de reais  Triunfo
44 milhes de reais  utc engenharia
11 milhes de reais  Trend Bank
6 milhes de reais  MENDES JNIOR
6 milhes de reais  ALUSA engenharia
2 milhes de reais  egesa
1 milho de reais  JBS Friboi

COMO FUNCIONA O ESQUEMA ASSAD
DOADORES - Empresas de diferentes setores econmicos, com destaque para grandes empreiteiras, contratam firmas de engenharia e terraplanagem que s existem no papel.
LARANJAS -  Os clientes no querem a efetiva realizao dos servios. O objetivo deles  usar as firmas como laranjas para repassar dinheiro, de forma clandestina, a terceiros.
CAIXA  At agora, j foi identificado o repasse de 1 bilho de reais s empresas de Adir Assad.
DESTINO:
- O empresrio fica com 10% desse valor.
- Pagamento de propina a servidores pblicos.
- Caixa dois eleitoral de partidos polticos.
- Despesas correntes de polticos amigos.

"EU TRABALHO MUITO"
Qual o segredo do sucesso do senhor? 
Vocs j bateram muito em mim e nos meus clientes. Por que isso? Os meus clientes so todos clientes de primeira linha, clientes top, tudo gente de respeito. E eu sou um cara simples, no sou um magnata. Mas eu no posso falar. Meus advogados me orientaram a no falar, porque o caso corre em segredo de Justia. O que eu posso dizer  que eu trabalho muito. 

A acusao que pesa contra o senhor  justamente a de no ter prestado esses servios. 
Como no? Com certeza foram prestados. Eu tenho as notas fiscais. Eu tenho essas mquinas, sim. Tenho as notas dessas mquinas, e as apresentei todas  Receita. 

E cad essas mquinas? 
Esto espalhadas por a, em obras. A cada hora tinha uma em um lugar diferente. 

Clientes do senhor dizem que o dinheiro repassado para as suas empresas tinha como destino final polticos e partidos. 
Isso  piada,  histria. Infelizmente, eu no tenho um amigo poltico sequer. No tenho nenhum poltico com quem eu possa tomar um caf. 

O empresrio Fernando Cavendish disse claramente que o dinheiro que a Delta passava para o senhor ia para polticos. 
 mentira. Ele falou isso para botar fogo no mercado. Eu nunca falei com Cavendish. Pode olhar nos meus extratos telefnicos. Eu posso ter falado muitas vezes com a Delta, mas com o Cavendish, no. 

Por que a convocao do senhor para depor no Congresso deixou os polticos to preocupados? 
Foi filme, teatro. 

Por que grande parte do dinheiro que entrava nas contas de suas empresas era sacada imediatamente? 
Todos sabem que eu trabalhava tambm com eventos. E para trabalhar com eventos  preciso ter dinheiro em espcie. Tem de pagar garons e seguranas, por exemplo. E a gente fez eventos grandes. Eu no sou um z-man. 

Qual a razo de as empresas do senhor no existirem nos endereos declarados e estarem, todas, em nome de laranjas? 
Elas funcionam nesses endereos por uma razo simples: esto fora da cidade de So Paulo para pagar menos impostos. No sou s eu que fao isso.  planejamento fiscal. Grandes empresas e at bancos fazem a mesma coisa. Os impostos aqui na cidade de So Paulo so muito altos. Quanto aos scios, so todos parceiros, funcionrios meus de mais de vinte anos. No so laranjas. 

O que  um "laranja" para o senhor?
Laranjas eles seriam se fossem carpinteiros, pedreiros. No  o caso. 

As atividades do senhor hoje esto paralisadas? 
Os grandes clientes foram embora. Restaram alguns poucos, pequenos. Tambm perdemos parceiros, empresas que subcontratvamos. A Receita Federal me aplicou um monte de multas, que eu ainda vou discutir futuramente. Hoje est tudo parado. Mas eu vou voltar, pode ter certeza. 

O senhor se considera um bilionrio? 
(Gargalhadas) Imagina! Claro que no. Eu sou uma pessoa de vida mediana, no moro em nenhum palacete, moro numa casa pequena, tenho carro simples. 

E qual a receita para conseguir tantos contratos assim? 
Voc deve saber que eu j fiz corrida, fiz iron Man, fao ginstica, gosto de business e de amizades. Sou uma pessoa que vive em contato com as outras pessoas. Tenho facilidade de empatia. Trabalho com marketing de relacionamento. Eu sei lidar com pessoas.  por isso que eu cheguei aonde cheguei. No posso mais falar. S peo que voc seja justo, seja imparcial. E se considere um abenoado por ter falado comigo. 

COLABORARAM HUGO MARQUES E ADRIANO CEOLIN


3#2 RETRATOS DE UMA TRAGDIA
Em nome de uma ideologia primitivista, a Funai e os religiosos do Cimi jogam ndios contra pequenos agricultores e at assentados do Incra em Mato Grosso do Sul. Esto semeando ventos que vo produzir uma tempestade no campo.
ROBSON BONIN

     O cenrio buclico no municpio de Iguatemi, em Mato Grosso do Sul, onde hoje mora o agricultor Jos Joaquim do Nascimento,  apenas aparente. Em outubro passado, a 17 quilmetros dali, Z Alagoano, como  conhecido esse senhor de 91 anos de idade, foi expulso pela segunda vez do seu stio. Armados de porretes e faces, ndios guaranis-caiovs cercaram a casa da famlia e ameaaram atear fogo em tudo, caso a famlia no abandonasse imediatamente as terras. Um caminho arrumado s pressas levou os poucos e rsticos mveis. Z Alagoano deixou para trs as galinhas, uma vaca leiteira e um motor do pequeno engenho de farinha. Nos dias seguintes, os ndios depredaram a propriedade. At as madeiras do telhado e as esquadrias das portas e janelas foram arrancadas, transformando a antiga casa em um monte de runas. Amparado por advogados de um vizinho, ele conseguiu a reintegrao de posse das terras recebidas do governo e cultivadas pela famlia h mais de cinquenta anos. Com receio de que a ao policial possa gerar um confronto, as autoridades se recusam a cumprir a ordem judicial. 
     A convivncia entre ndios e agricultores na regio  historicamente pacfica. O que mudou para pior  muito pior  o convvio foi a deciso da Funai, por razes polticas e ideolgicas, de criar no Brasil uma "questo indgena". Nada mais fcil. Afinal, quem pode ser contra a defesa dos selvagens puros e inocentes diante do poder econmico e da maldade intrnseca do homem branco europeu, esse predador nato, mercantilista frio, pronto a matar para roubar at satisfazer sua fome de riquezas? Essa narrativa  cativante. Mas ela  apenas isso, uma narrativa. Na vida real, o que se observa  que a Funai e seus aliados no Conselho Indigenista Missionrio (Cimi) esto levando a manipulao poltica das populaes indgenas a nveis intolerveis, ilegais e em franco desafio  Constituio. Na vida real, o que ocorre  que a Funai e o Cimi esto insuflando os ndios no apenas contra as grandes propriedades e o agronegcio. Agora as vtimas so pequenos produtores de agricultura familiar  brasileiros pobres e trabalhadores que vivem em reas que nunca pertenceram aos ndios e nem sequer so disputadas pelas lideranas indgenas. Incentivados pelos funcionrios da Funai, os ndios promoveram neste ano 105 invases, 67 delas em Mato Grosso do Sul. Eles invadiram terras de reservas demarcadas ocupadas por fazendeiros? No. Invadiram terras que eram comprovadamente habitadas por ndios em 1988, ano-base para os processos legais de demarcao de acordo com a Constituio brasileira? No. Eles invadiram terras que os antroplogos e os religiosos do Cimi decidiram pelos critrios deles que devem ser entregues aos ndios. Os critrios da Funai e do Cimi so bastante peculiares. Com base neles, esto sendo reivindicadas como reservas indgenas reas produtivas e at cidades em Minas Gerais, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. 
     No domingo 8, o produtor rural Ivagner Jos Varago pensou duas vezes antes de tomar uma deciso: posar para uma fotografia na porteira da Fazenda So Jos, invadida pelos ndios em outubro. Ameaado de morte, ele no voltava ao local desde o dia em que fora forado a abandonar a casa na calada da noite. "Durante a madrugada, os ndios cortavam as cercas, matavam o gado, botavam fogo no pasto, a gente no podia sequer sair", conta o produtor, que agora mora com a me na cidade. " uma sensao muito dolorosa, de revolta, de impotncia, voc no poder entrar na sua propriedade", diz ele, observando o vaivm dos ndios. Dono da propriedade desde 1979, Varago conta que j gastou boa parte das economias da famlia para pagar advogados e peritos que auxiliam no processo de reintegrao que tramita na Justia. "A gente sabe que o culpado no  o ndio. Os responsveis por isso so essas ONGs, a Funai e o Cimi, que envenenam a cabea deles." Do lado dos ndios, a insatisfao  a mesma: "Nunca tivemos conflito com os fazendeiros. Os dois lados querem resolver essa questo. O problema  que o governo fica enrolando. A Funai s vai resolver isto aqui depois que acontecer alguma coisa. Depois que morrer algum. A vo olhar aqui'', diz o ndio Karaj. 
     Na semana passada, um evento em Campo Grande marcou o incio de um movimento dos agricultores para arrecadar recursos para financiar manifestaes, pagar honorrios de advogados e ampliar a segurana nas propriedades ameaadas. Isolado em sua fazenda e sem a garantia de segurana policial no caso de um confronto com os ndios, Leonardo Palmieri disse a VEJA que est disposto a ir s ltimas consequncias para defender o que  seu: "Isto aqui virou uma terra sem lei. Eu nunca pensei que tivesse de comprar uma arma para me proteger dentro da minha prpria casa. Os fazendeiros de Sidrolndia esto dispostos a morrer dentro da terra deles. Eles tm habeas corpus preventivo, armas registradas e esto seguindo a lei. J que a Fora Nacional no nos ampara, a polcia diz que no pode vir aqui, ento ns temos de nos defender sozinhos". Em Braslia, tenta-se tirar da Funai o monoplio sobre a demarcao de terras indgenas. O governo quer a participao de outros rgos no processo. A proposta, apresentada em junho por Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil, foi atacada ferozmente pela Funai e pelo Cimi. Mas  vital que se chegue a algum critrio civilizado, legal, amparado pela Constituio, um marco jurdico que garanta a integridade das propriedades agrcolas vizinhas s reservas indgenas demarcadas  e uma poltica indigenista que preserve a sade, a cultura e o bem-estar dos descendentes das populaes pr-colombianas do Brasil. 

EXPULSO DE CASA
Jos Joaquim do Nascimento muda o semblante quando fala do stio da famlia em Japor, um pequeno municpio de Mato Grosso do Sul. Apesar dos 91 anos, as lembranas permanecem intactas: "Meu passatempo era cuidar do stio. Pescar, plantar mandioca, batata, cuidar do gado....". Encravada no corao da crise criada pela Funai na regio, a terra de Z Alagoano, como ele  conhecido, foi uma das primeiras a ser invadidas pelos guaranis-caiovs. Da casa simples, sobrou apenas uma foto. ndios armados de porretes e faces invadiram a propriedade. Z Alagoano deixou quase tudo para trs. At chegou a recuperar a posse da terra na Justia. Em outubro passado, porm, o stio foi novamente invadido pelos ndios. Hoje, ele limpa terrenos baldios para complementar a aposentadoria. 

FAVELAS INDGENAS
Os ndios guaranis-caiovs sempre tiveram uma convivncia pacfica com os agricultores do estado. "Nunca tivemos conflito com os fazendeiros. Os dois lados querem resolver essa questo. O problema  que o governo fica enrolando. A Funai s vai resolver isto aqui depois que acontecer alguma coisa. Depois que morrer algum. A vo olhar aqui", diz Maraj, uma espcie de soldado da milcia criada pelos ndios para defender as terras invadidas. Segundo ele, os fazendeiros precisam ser expulsos de suas terras para que a regio se torne uma grande "Nao Guarani". Invadidas, as fazendas se transformam em favelas rurais: "Aqui no tem comida, no tem remdio, no tem gua. O governo l em cima no sabe o que a gente est passando". Sobre a iminncia de um conflito, Karaj  assertivo: "No queremos briga com eles (fazendeiros). Mas a gente est aqui para derramar o nosso sangue se for preciso". 

INSUFLANDO O CONFLITO
Na tarde do ltimo domingo, o produtor rural Ivagner Jos Varago, 40 anos, criou coragem e foi at a porteira da fazenda So Jos, no centro da invaso indgena controlada pelos guaranis-caiovs, em Japor (MS). Ameaado de morte, ele no voltava ao local desde o dia em que fora forado a abandonar a casa. Morando sozinho na propriedade, fazia tempo que ele vivia um clima de terror, "Durante a madrugada, os ndios cortavam as cercas, matavam o gado, botavam fogo no pasto e a gente no podia sequer sair", relata. Certo dia, recebeu um telefonema de um guarani que o alertou para que abandonasse a fazenda antes da chegada dos invasores. Dono da propriedade desde 1979, Varago teve de voltar para a cidade e morar com a me: "Voc no poder entrar no que  seu d uma sensao de impotncia. A gente sabe que o culpado no  o ndio. Os responsveis por isso so essas ONGs, a Funai e o Cimi, que envenenam a cabea deles". 

MATAR OU MORRER
O fazendeiro Leonardo Palmieri, 46 anos, encarna a face mais preocupante do conflito pela terra em Mato Grosso do Sul. Ele faz parte de um amplo grupo de fazendeiros da regio de Sidrolndia que resolveu se armar para defender suas propriedades. Isolado em sua fazenda e sem a garantia de segurana policial no caso de uma invaso, Palmieri afirma que est disposto a ir s ltimas consequncias para defender o que  seu: "Agora ns vamos nos defender. Os fazendeiros de Sidrolndia esto dispostos a morrer dentro da terra deles. Eles tm habeas corpus preventivo, armas registradas e esto seguindo a lei". A fazenda de Palmieri pertence  famlia h quatro geraes. "O que o governo est esperando para resolver isto aqui? Est esperando morrer mais gente?", pergunta Palmieri. 


3#3 PROTEGENDO A MFIA
Romeu Tuma Jnior, ex-secretrio nacional de Justia, revela que o governo Lula deu privilgios a um russo procurado pela Interpol. 
ROBSON BONIN 

     Em 2007, o magnata Boris Berezovsky ganhou ares de celebridade no Brasil. Famoso na Rssia, onde nasceu, ficou rico e de onde teve de sair fugido acusado de envolvimento com a mfia, ele era o scio mais vistoso de uma empresa que ajudou o Corinthians a montar um time de astros. O Ministrio Pblico, porm, descobriu que a parceria ocultava uma engrenagem complexa que usava a compra e a venda de jogadores de futebol como biombo para disfarar um esquema internacional de lavagem de dinheiro. No se conhecem at hoje exatamente a dimenso do crime e suas reais conexes, at porque a parceria foi desfeita, os envolvidos desapareceram e Boris, o principal acusado, morreu, no incio do ano, em Londres, onde estava asilado desde que fugiu de seu pas. Na poca do escndalo, surgiram indcios de que o magnata russo mantinha relaes prximas com polticos brasileiros e cultivava interesses que nada tinham a ver com times de futebol. Mas isso tambm nunca foi devidamente esclarecido. 
     Lanado na semana passada, o livro Assassinato de Reputaes  Um Crime de Estado, do ex-secretrio nacional de Justia Romeu Tuma Jnior, resgata um captulo indito sobre a passagem de Boris Berezovsky pelo Brasil. So duas revelaes importantes. A primeira: ele quase foi preso em So Paulo. A segunda e mais grave: no foi preso porque o Ministrio da Justia deu ordem para no prend-lo. Quando isso aconteceu, Tuma Jnior, como delegado e corintiano, desconfiou da parceria e resolveu investigar o principal investidor: "Havia muitas coisas por detrs (da parceria): a criao de um banco de apostas para manipular resultados esportivos, todo um envolvimento com gente do governo federal para atuar em projetos cuidadosamente indicados, e que gerariam parte dos recursos para financiar partidos e pessoas, como era o caso da compra da Varig", relata Tuma Jnior. Eram, porm, apenas suspeitas. O delegado conta que soube da chegada do russo a So Paulo. Consultou os arquivos e descobriu que ele estava na lista de procurados da Interpol. 
     "Chamei a Polcia Federal e mandei prend-lo. Ele tinha um mandado de priso da Interpol", conta. Para o autor, prender Berezovsky seria um procedimento natural da Polcia Federal em relao a um procurado internacional. Mas um telefonema o fez mudar de ideia. Segundo conta no livro, to logo acionou a polcia para prender o magnata russo, ele recebeu uma ligao no celular. Do outro lado da linha estava o ento ministro da Justia Mrcio Thomaz Bastos. "Voc no pode mexer com essa pessoa, ele est legal no Brasil", advertiu o ministro. O autor tentou argumentar, mas a outra resposta foi ainda mais clara: "No pode prender de jeito nenhum. Romeu! A Federal no vai fazer nada, no vou permitir, ele no pode ser preso. Eu recomendo que voc no mexa com ele". Depois de ouvir as declaraes do ministro, Tuma Jnior anotou: "Por tudo que a gente v hoje, por todos os favores que essas pessoas recebiam, havia um troco que ia para uma caixinha do Partido dos Trabalhadores", registra o autor. Para Tuma Jnior, o interesse do magnata russo no Brasil era um s: conseguir o ttulo de refugiado poltico para escapar das ameaas que sofria dos russos ligados ao presidente Vladimir Putin, seu inimigo, na Europa. Berezovsky teria conseguido alcanar seus objetivos, no fosse a ironia de meses depois Romeu Tuma Jnior ter sido alado pelo ento presidente Lula ao comando da Secretaria Nacional de Justia, justamente o rgo que iria abrir as portas do Brasil ao magnata. 
     Na edio passada, VEJA publicou os principais trechos do livro do ex-secretrio, que acusou o governo petista de fabricar dossis contra adversrios, de manipular investigaes e ainda apontou Lula como informante do Dops na poca em que era sindicalista e liderava as greves no ABC paulista  o que foi motivo de muita polmica. O ex-presidente no se pronunciou. A oposio apresentou requerimento para que o autor fosse convidado a falar no Congresso. A base aliada, porm, blindou o governo e acabou derrubando os requerimentos. Um dos principais personagens do livro, o petista Gilberto Carvalho prometeu processar Tuma Jnior diante do relato de que o ministro teria confessado que havia pagamento de propina no governo do prefeito Celso Daniel, morto em 2002, o que estaria por trs do assassinato. Nas redes sociais, a militncia virtual do PT se encarregou de fazer o que sabe de melhor. Sem entrar no mrito das declaraes do autor, sem sequer ter lido o livro, passou a tentar desconstruir a figura do ex-secretrio, como se as graves revelaes que ele fez se tornassem menos importantes por causa do seu passado. A primeira edio se esgotou antes mesmo de chegar s livrarias. 


3#4 CARTEL NA MIRA DO STF
A denncia envolvendo nomes do PSDB chega ao STF. O PT usar o caso na campanha de 2014 para tentar minimizar os efeitos da priso dos mensaleiros.

     O inqurito que investiga o suposto pagamento de propina a polticos do PSDB em licitaes de trens e metr de So Paulo foi enviado ao Supremo Tribunal Federal, que agora vai analisar se existem indcios para a continuao da investigao criminal. O caso chegou  mais alta corte do pas porque envolve polticos com foro privilegiado, entre eles trs secretrios do governador paulista, Geraldo Alckmin: os tucanos Edson Aparecido (Casa Civil) e Jos Anbal (Energia) e Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Econmico), do DEM. Outras sete pessoas so investigadas. Seus nomes aparecem em depoimento de Everton Rheinheimer, ex-executivo da Siemens, a empresa alem que em julho admitiu a existncia de um cartel entre as companhias para dividir contratos de licitao. Em uma denncia  annima, Rheinheimer havia dito ter provas contra os tucanos, mas no depoimento oficial, na semana passada, recuou e disse no ter como provar as acusaes. 
     A deciso sobre o caso est nas mos da ministra Rosa Weber, mas no deve sair antes de fevereiro de 2014, quando o Supremo volta do recesso. O caso do cartel dos trens ter lugar garantido na troca de acusaes na campanha eleitoral do ano que vem, assim como o chamado mensalo mineiro, que tem entre os acusados o tucano e ex-governador do estado Eduardo Azeredo. As duas denncias sero usadas pelo PT para tentar amenizar os efeitos da priso dos mensaleiros petistas neste ano. 
     Alckmin e o candidato do PSDB  Presidncia, o senador Acio Neves, j buscam delinear as diferenas. "Ns queremos que a investigao se faa com seriedade e rapidez", afirmou Alckmin. "Se algum do PSDB tiver feito algo errado, que v para a cadeia tambm", disse Acio. Do outro lado, durante o congresso do PT em Braslia na quinta-feira, petistas gritaram frases de apoio ao presidirio Jos Dirceu. Presente ao evento, o ex-presidente Lula, ao mencionar o petista condenado em seu discurso, proferiu uma declarao propositalmente desconexa: ele no defendeu Dirceu explicitamente, mas disse que "houve uma desproporcionalidade" na maneira como a imprensa tratou a questo do pedido de emprego do condenado num hotel de Braslia e a notcia do encontro de cocana num helicptero pertencente  famlia de um senador mineiro do PDT. A presidente Dilma no fez meno aos mensaleiros em sua fala. Corrupo  um mal a que nenhuma sigla poltica est imune. O que as distingue  a reao de seus partidrios quando a lambana vem  tona. 
DANIELA LIMA


